Eu gosto bastante de animações. Pixar, Disney, DreamWorks. Confesso que Como treinar seu dragão parecia até meio bobo pelo título mas acabou se tornando uma das minhas animações favoritas. A história é ótima, a qualidade gráfica também, dragões sempre ajudam. Mas uma coisa que me chamou a atenção foi o comportamento desses dragões no filme.

Soluço e Banguela.
Spoilers abaixo!
Soluço acaba se tornando o cara dos dragões usando truques que ele aprende ao lidar com o seu próprio dragão. Por exemplo, ele nota que Banguela não gosta de enguias e se derrete com um carinho no papo. Depois ele usa isso pra manipular outros dragões e se tornar o guerreiro “matador” de dragões, surpreendendo todo mundo.
Agora, essa coisa toda de observar comportamentos e respostas pré-definidas (o medo/aversão, ou se derreter todo) a estímulos específicos (enguias, carinho no lugar certo) remetem às histórias clássicas da etologia.
Etologia é o estudo do comportamento animal em condições naturais, em oposição a estudar em condições artificiais num laboratório. A etologia começou com três caras (que depois ganharam o prêmio Nobel por esse trabalho pioneiro): Konrad Lorenz, Nikolaas Tinbergen e Karl von Frisch.

Os vencedores do Nobel de 1973.
Lorenz estudou o comportamento de corvos, gansos, insetívoros e várias outras espécies (ele conta vários episódios interessantes no livro King Solomon’s Ring). O trabalho mais importante de Karl von Frisch foi entender o significado da comunicação por dança das abelhas. Tinbergen (grande amigo de Lorenz até brigarem: um era judeu e o outro nazista) passou um bom tempo explorando os chamados padrões fixos de ação - uma sequência de comportamentos que é automaticamente disparada por um estímulo específico, bem como o que o Soluço explora nos dragões do filme (e mais claramente ainda na série do Cartoon Network).
Uma boa história da etologia vem dos peixes. O peixinho stickleback (da família Gasterosteidae, se alguém quiser saber) fica agressivo e territorialista durante a época de acasalamento. Ele ataca outros machos que se metem a nadar pela sua área.

O peixinho stickleback. Pavio curto.
A questão é: como ele sabe que o que ele está atacando é um outro macho? Será que ele tem um sistema visual complexo que reconhece um peixe macho rival? Niko Tinbergen suspeitou que o peixe não tinha um sistema tão sofisticado pra reconhecer peixes machos da sua espécie. Talvez ele tivesse um macete qualquer.
Pra tentar descobrir o que estava acontecendo, Niko Tinbergen construiu três modelos de “peixe”:
- um bem realista, mas todo prateado/cinza;
- um bem simples, mas com a barriga vermelha, assim como os stickleback machos;
- um outro, com a barriga vermelha também, mas com formato diferente do stickleback, mais arredondado.
Depois ele apresentou os três “peixes”, um de cada vez, para um stickleback de verdade. Veja por você o que acontece:
Se lembra um peixe e tem a barriga vermelha: ao ataque. Por outro lado, o stickleback ignora completamente o modelo mais realista. Se não tem a barriga vermelha, ele deixa pra lá. Parece que ele realmente tem um “macete” pra saber o que é um rival e o que não é.
“Como ele não percebe que o negócio é feito de plástico!? Isso nem parece com um peixe!”, alguém diria. Sim. Pode parecer que o peixe é bobo e pode ser enganado facilmente. Acontece que, no dia-a-dia de um stickleback selvagem, as coisas que se parecem com peixes e tem a parte de baixo vermelha costumam ser outros sticklebacks machos. Não é todo dia que ele se depara com um modelo de plástico, de barriga vermelha, construído e colocado ali por um pesquisador pra entender melhor o comportamento dele. E é muito mais fácil identificar simplesmente a cor vermelha do que tentar identificar o sexo a partir de várias outras que caracterizam um peixe macho. E ele aprende eventualmente que aquilo não é um peixe e muda sua maneira de agir.
Às vezes, comportamentos complexos seguem fórmulas simples, que podem ser facilmente manipuladas. O stickleback não está sozinho nessa: vários insetos que são predados por morcegos (que emitem ultrassom) pousam e ficam completamente imóveis quando ouvem ultrassom - pra passarem despercebidos pelo morcego. Outro exemplo: o próprio Tinbergen descobriu que um tipo de vespa usa a paisagem ao redor pra saber onde está a sua toca - se você desloca alguns gravetos e arbustos para o lado com cuidado, a vespa pousa no lugar errado (e imagina-se, entra num conflito interno similar à sensação de “onde eu deixei minha chave?”).

Cobra! Primeiro você corre, depois você para pra pensar do que está correndo.
E nós fazemos a mesma coisa em alguns casos. A nossa resposta a cobras (predadores com quem nossos ancestrais convivem há muitos milhões de anos) é extremamante rápida. Você tem neurônios específicos que reagem a imagens de cobras - provavelmente antes mesmo de você se dar conta que viu uma cobra. E, para seu alívio, às vezes é só um cipó ou uma raiz. Ou foi só algo parecido com uma cobra que um pesquisador colocou ali pra estudar o seu comportamento.