Tamanho do cérebro importa? As abelhas diriam que não. Com seus ínfimos cérebros de 1 mm^3 e menos de 1 milhão de neurônios (nós temos, na média, 86 bilhões), elas se viram muito bem, obrigado. Elas veem o que nós não vemos, dançam pra se comunicar, possuem um senso de direção excelente e lidam até com conceitos abstratos.
Visão além do alcance
De toda o espectro de luz que existe no mundo, em diferentes comprimentos de onda, como humanos, vemos apenas uma pequena parte. Essa parte é chamada de, previsivelmente, o “espectro visível”.

Logo abaixo do vermelho (o menor comprimento de onda que enxergamos) tem o infra-vermelho e logo acima do violeta o ultra-violeta. Aí que entra a visão das abelhas: enquanto nós paramos no violeta elas nos ultrapassam e veem também o ultra-violeta.
Isso não é exclusividade das abelhas - aves também veem uma parte maior do espectro. O que isso quer dizer é que elas enxergam o mundo diferente de nós - o que não chega a ser uma surpresa. A questão é que isso é importante pra elas.
Quando você olha uma flor, você vê só a flor. Bonita e tal. As abelhas veem uma fonte de alimento. E as flores contam com as abelhas pra polinizá-las. Então as flores sinalizam pras abelhas: “Ei! Néctar! Aqui!”.

Esquerda: como você vê a flor. Direita: como a abelha vê a mesma, com direito a sombra no meio, indicando onde está o néctar. Fonte
Dancing Queen (Bee)
Abelhas dançam. Mas não é pra sacudir o esqueleto (elas nem tem esqueleto interno). Elas fazem uma “dança” pra avisar às outras sobre novas fontes de alimento. Mas é difícil falar de dança. Melhor assistir:
Como a pessoa explica no vídeo, elas fazem essa coisa meio em forma de 8 pra indicar em que direção e a que distância está a fonte de comida recém-encontrada.
Quem primeiro identificou a “dança” das abelhas foi o etólogo Karl von Frisch, que ganhou o Nobel por isso. Com algum atraso, porque inicialmente as pessoas receberam com ceticismo a ideia de que abelhas tivessem um sistema tão complexo de comunicação. Eventualmente, isso se tornou mais aceito. Fizeram estudos em que se monitora por radar o caminho das abelhas e como von Frisch já havia proposto, elas, de fato, usam a dança como meio de comunicação. É deixar o seu corpo falar por você.
Grandes navegadoras
Todo dia elas saem da colméia em missão exploratória, encontram fontes de alimento e voltam. Ok, nada muuuito impressionante. Aí entra um pesquisador empenhado e captura a abelha enquanto ela está tranquilamente indo de volta para a colméia. E leva ela para um lugar aleatório. E ela, após um momento de confusão, consegue encontrar o caminho e logo, logo está voltando pra casa, outra vez.
Essa tarefa aparentemente simples de voar por aí exige bastante das abelhas. Requer que elas reconheçam pontos de referência - a árvore que fica perto da colméia, o rio na beira do qual está a flor que encontrou mais cedo. Requer traçar rotas de um ponto ao outro, passando por outros lugares no meio do caminho: tipo quando você tem que passar no mercado, mas é meio contramão, porque agora você está indo visitar sua tia, então é melhor deixar pra ir no mercado na volta, porque aí o desvio é menor, já é caminho.

Se você se perder, pergunte pra uma abelha. Ela provavelmente conhece a região.
E elas parecem ter um mapa mental, pra coisas que não estão à vista - ou seja, elas não usam só o Sol como referência (como se acreditou por muito tempo). Se você faz elas acordarem na hora errada (com anestesia), elas ficam confusas quanto a posição do Sol (porque o horário é diferente, o Sol está em outro lugar no céu) e ficam com as rotas bagunçadas inicialmente. Mas logo depois conseguem corrigi-las, ignorando o Sol, e eventualmente acham a colméia e as flores no lugar de sempre, como num dia normal.
Conceitos abstratos
Esquerda e direita, igual e diferente. Conceitos associados não a uma “coisa” em particular, mas sim à relação entre uma ou mais “coisas”. E as abelhas conseguem lidar com esse tipo de conceito. Sabemos disso através de tarefas chamadas delayed matching to sample (DMTS, que pode ser traduzido como correspondência atrasada à uma amostra).
Numa tarefa dessas, você tem uma arena em forma de Y (veja foto abaixo). A abelha vê uma cor no círculo inicial, escolhido aleatoriamente entre azul e amarelo (como na foto de exemplo abaixo). Aí passa pelo buraco no meio e vê dois corredores, um com um círculo amarelo e outro com um círculo azul. E a recompensa está no corredor do círculo que tem a mesma cor do inicial.

A arena em Y para o teste (adaptado de Avarguès-Weber e Giurfa, 2013).
Depois que elas estão treinadas, você pode para de usar as cores originais (azul e amarelo) e mudar pra, sei lá, verde e vermelho, ou até abandonar as cores e usar padrões em preto e branco (tipo, barras verticais ou horizontais). E elas continuam conseguindo obter a recompensa quase sempre, porque elas aprendem o conceito de “igual” - aprendem que a escolha correta é a coisa igual à coisa que elas viram antes.
Conclusão
Mais respeito com as abelhas (como se elas já não merecessem por polinizar a maior parte dos nossos alimentos).