Lobos tem uma presença significativa na nossa cultura, nem sempre no papel de protagonista: o lobo mau da Chapeuzinho Vermelho, o dos Três Porquinhos (será o mesmo lobo mau? Os Três Porquinhos é sequel de Chapeuzinho Vermelho?), Pedro e o Lobo, Mogli … sem contar que todo mundo sabe que se você tiver 6 filhas e depois um filho homem, o caçula vai ser um lobisomem. O que não é tão ruim: alguns se dão muito bem como professores em escolas de magia, dublês em clipes do Michael Jackson ou como o cara que não fica com a menina no final de Crepúsculo.

Lobisomens

Lobisomens. Fico imaginando se eles tem 6 irmãs mais velhas.

Apesar disso, lobos perdem feio para cachorros em importância para a humanidade. Só no Brasil temos mais de 30 milhões de cachorros de estimação (sem contar incontáveis outros na rua e em abrigos). Ou só pense em quantas pessoas choraram assistindo Marley & Eu, ou quantos dálmatas foram adotados em 1997, depois de 101 Dálmatas.

A origem dos cachorros está no lobo - tecnicamente, o cachorro e o lobo são a mesma espécie - Canis lupus. Se você cruzar um lobo com um cachorro, os filhotes são saudáveis e podem ter outros filhotes.

Apesar disso, lobos são bem diferentes de cachorros na aparência, mas também no comportamento. Tentativas modernas de treinar lobos não foram bem-sucedidas: por exemplo, sem contato com humanos antes dos 19 dias de idade, o lobo dificilmente vai tolerar pessoas por perto quando for adulto. Mesmo os lobos que são socializados desde pequenos falham em tarefas de obediência: lobos não seguem ordens básicas de “senta”, “fica” e “finge de morto”. E não é porque eles não são inteligentes o suficiente - é bem o contrário: lobos são oportunistas e aprendem só de olhar, muito mais rápido do que cachorros. É extremamente difícil mantê-los em canis - eles destrancam a porta e fogem quando tem a chance, coisa que cachorros raramente aprendem a fazer. O que acontece é que eles simplesmente ignoram as ordens - com um ar de desprezo, imagino - eles não são muito ansiosos pra agradar humanos.

Lobos

Lobos. Eles não ligam para o que você pensa.

Já os cachorros foram domesticados em algum momento entre 7 e 30 mil anos atrás. Questão é, como isso aconteceu? Lobos não são fãs de humanos. Então, parece pouco provável que humanos, dezenas de milhares de anos atrás, nos primórdios da civilização, tenham conseguido treinar e domesticar lobos selvagens. Outra história é mais provável. Uma história em que a iniciativa é dos lobos.

Lobos se aproximaram de humanos para aproveitar as carcaças, sobras de comida e caça descartada para se alimentar. Nessa situação, lobos que tivessem pouca tolerância a humanos (que afinal não deviam ser muito amigáveis com lobos) fugiriam rápido assim que avistassem uma pessoa. Alguns lobos, porém, aceitaram melhor a presença de pessoas, e esses foram os lobos que conseguiram aproveitar a nova fonte de alimento. Gerações e gerações de lobos e humanos depois, haveria uma subpopulação de lobos que conviveria bem com humanos. Nessa altura, já havíamos dado o pontapé inicial da civilização, a agricultura já existia, e esses novos lobos podiam ser usados para diferentes tarefas: ajudar nas caçadas, evitar que coelhos comam a plantação, avisar quando alguém de uma tribo estranha está invadindo. Mais tempo se passa e esse lobos (agora já cachorros) começam a ser selecionados para tarefas específicas: puxar trenós, ser pastor de ovelhas, farejar, ganhar concursos de beleza, passear dentro daquelas bolsinhas de mão, participar de programas de auditório e nos acompanhar em caminhadas noturnas.

Cachorros

Cachorros para toda ocasião.

Como a gente sabe que essa história faz sentido? Uma evidência vem de 1959, quando um cientista russo começou um experimento para ver se os cachorros poderiam ter surgido a partir desses supostos lobos mais amigáveis. O experimento era simples: cruzar só as raposas mais amigáveis, geração após geração (e continua até hoje, embora o cientista - Dmitry K. Belyaev, tenha morrido em 1985). O que Belyaev e sua equipe faziam era selecionar as raposas que fossem mais tolerantes com humanos: as que vinham comer na mão desde pequenas, as que não tinham medo e aceitavam carinho de humanos, as que às vezes preferiam brincar com humanos do que com outras raposas. Essas raposas cruzam entre si. Na próxima geração, novamente, Belyaev e equipe escolhiam as raposas mais simpáticas pra cruzarem entre elas e assim por diante.

Silver fox

A raposa prateada (Vulpes vulpes) usada por Belyaev.

Avançando várias gerações, para os tataranetos das raposas originais: elas aceitam completamente a presença de humanos, sem medo. Além da mudança de comportamento (que já era esperada, afinal eles estavam selecionando as raposas por causa disso), vieram também outras: elas passaram a abanar o rabo e lamber os cientistas. As orelhas ficaram caídas, a cor o pelo começou a ter padrões em preto e branco. Algumas começaram a emitir sons muito parecidos com um latido.

O vídeo abaixo é um trecho de um documentário, com o próprio Belyaev falando (5 minutos, em inglês):

Hoje, graças a Belyaev, você pode ter uma em casa. Talvez você, não, mas na Rússia, deve ser possível.

Assim, agora sabemos que é possível que algo semelhante tenha acontecido com lobos uns bons 10 ou 20 mil anos atrás (claro, sem planejamento e sem um pesquisador russo por trás). E nos seus vários papéis, lobos domesticados devem ter sido importantes para aquelas primeiros grupos que adoraram a agricultura.