Música
“Toda criança é um artista; o problema é continuar sendo um artista quando você cresce.”
Pablo Picasso
Às vezes me aventuro a escrever letras e músicas, embora meus talentos musicais se resumam a tocar violão com o CifraClub aberto no celular, tocar Asa Branca no máximo de instrumentos possíveis.
E escrever letras é sempre uma atividade legal: contar uma história ou evocar um tema por escrito, com limitações (estrutura do verso, rimas etc). É como um jogo.
Rap do Cajal
Na época em que eu descobri o musical Hamilton, eu tentei escrever um hip-hop sobre o a vida do Santiago Ramón y Cajal - que carrega o epíteto de “pai da neurociência”. Não chega aos pés de My Shot, mas é divertido. Letra, beat e voz própria, nada muito bom.
Letra
Quem é esse cara baixo e forte, de olhos penetrantes
De trabalhos importantes e desenhos elegantes
Que mostrou do que é que um cérebro se faz?
Quem é esse tal espanhol multi-capaz?
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Da mocidade à morte, entusiasmo inesgotável
De noite com a família, inabalável, homem notável
Na pesquisa, de dia, na universidade
Neurônios se rendiam diante dele, era verdade
. . .
Depois dele a neurociência nunca mais foi igual
Desbravador da consciência, era intelectual
Pintor da nossa essência, artista fora do normal
A arte e a ciência se encontram em Cajal
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Desde pequeno Santiago gostava de rabiscar
Esse menino rabiscava onde desse pra praticar seus talentos
Em muros recém-pintados, pra irritar, era tormento
Em paredes, portas, livros, desenhar a todo momento
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Se metia também a fazer estripulias
Num dia, o jardim do vizinho destruía
Com um canhão feito casa, evento mal-sucedido
E num outro experimento quase um olho foi perdido
. . .
Seu pai era respeitado, professor de anatomia
Pra ele a arte era pecado, coisa da vida vadia
Louco com seu filho artista, triste e em desespero
Forçou seu jovem filho a ser aprendiz de barbeiro
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Então, seu pai pensou que acabou:
“Meu filho agora se acalmou”
Só que não, não funcionou, a arte nunca o abandonou
E Cajal continuou, a vontade não passou
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Seu pai o levou pra conhecer anatomia
Da morte, então, ali, uma vocação nascia
No cemitério, desenhando ossos, viu a sua sina
Levou a sério e voltou seus esforços pra medicina
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Se formou médico e aos vinte e um anos foi servir, na luta
Tenente do exército espanhol na guerra de Cuba
Um ano na guerra e a saúde se perdeu
Teve malária e sobreviveu, tuberculose e não morreu
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Chegou de volta na Espanha, em ruínas, decrépito
Um fantasma do homem que havia ido pro exército
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Casou-se com Dona Silveria García
“Incondicional apoiadora do meu trabalho”, ele dizia
Ela entendia o que a pesquisa dele significava
Era parceira extraordinária, na vida e na casa
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Mas não fosse o seu pai ainda ajudar com um montante
Criar seis filhos teria sido uma missão desconcertante
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Com o dinheiro que juntou da guerra
Financiou as pesquisas em sua nova terra, Valencia
E vivência na ciência ele ganhava e passava horas seguidas
Vendo lâminas histólogicas de maneira metódica
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Seu vício era o microscópio
Patologia era o seu ópio
Cólera, inflamação, tecido epitelial
Qual era mesmo o nome dele? (Ramón y Cajal)
. . .
Depois dele a neurociência nunca mais foi igual
Desbravador da consciência, era intelectual
Pintor da nossa essência, artista fora do normal
A arte e a ciência se encontram em Cajal
. . .
Se mudou pra Barcelona e uma pergunta o afligia
O cérebro o apaixona e essa pergunta dividia
A comunidade em torno de duas verdades
A questão era: como é que o cérebro se organizaria?
. . .
Em uma grande, contínua estrutura, uma rede espalhada
Ou como um grande conjunto de células separadas mas conectadas?
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O problema era que naquela era
Tudo que se fazia era ficar na espera
Por microscópios mais potentes do que os que se tinha
Pra todo mundo ficar contente com o que se veria
. . .
A existência da divisão entre uma e outra célula
A neurociência avançaria então, muito mais bela
Elegante, vista através de uma nova janela
Mas naquela era, possível não era
Era necessário prosseguir com cautela
E bolar um jeito pra ver se a resposta se revela
. . .
Cajal acreditava na teoria reticular
“O cérebro é uma só rede, se alguém me perguntar”
Mas a curiosidade não deixava ele sossegar
Ele teve que se meter, ele teve que ir lá
. . .
Ouviu falar de um tal de Camilo Golgi, italiano
Que desenvolveu uma tal reação negra, há uns dez anos
A reação marcava o sistema nervoso pra histologia
Cajal, viu potencial, logo viu que resolveria
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Sem problemas, com clareza sem precedentes
O dilema, tem certeza que ninguém viu isso antes?
Neurônios demarcados, como se fossem desenhados
Até nos seus detalhes mais finos e delicados
. . .
Potássio e prata permitiram-nos ver
Ele trabalhou na técnica até obter
Os neurônios saltando como se quisessem ser
Fotografados, registrados para quem quiser saber
. . .
Cajal usou o que seu pai considerou pecado
E fez seus desenhos famosos, detalhados
Persistiu e chegou onde não havia imaginado
Passou a acreditar em neurônios separados
. . .
Com a técnica de Golgi mostrou que Golgi estava errado
E por isso ambos ganharam um Nobel compartilhado
Publicou mais de cem artigos, sua pesquisa rendeu frutos
Em Barcelona e Madrid, dirigiu museus e institutos
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Um deles hoje leva seu nome, sua doutrina
Sobre músculos, patologia, sobre o cérebro, a retina
Faleceu em Madrid, vida de azar e sorte
Diz a história que trabalhou até em seu leito de morte
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Quem é esse artista e cientista por coincidência?
Desenhista de neurônios de paciência e consistência
Que fez desenhos que até hoje ainda tem muita influência?
Reverência a Cajal, ele é pai da neurociência
. . .
Depois dele a neurociência nunca mais foi igual
Desbravador da consciência, era intelectual
Pintor da nossa essência, artista fora do normal
A arte e a ciência se encontram em Cajal
Contagem e Dosagem
Uma paródia de Cumade e Cumpade, de Leandro e Leonardo (que é uma ótima música de karaokê). Provavelmente só tem graça para quem já fez pesquisa científica de bancada, em laboratório de biologia. Voz minha em cima da original (com uma qualidade ruim também, um dia eu aprendo a mixar música direito).
Letra
Bota o sapato fechado que não deixa o pé de fora
Pega o jaleco e vai embora pro Fundão pra trabalhar
É gera-gera, geração de conhecimento
Vai fazendo experimento até poder publicar
. . .
Fator de impacto não é baixo e a revista é lá de fora
Se o revisor não der bola, o predatório vai aceitar
É gera-gera, geração de dado novo
Resultado fabuloso, o p baixou do limiar
. . .
Então disseca, macera
Pipeta e vai botar o DAPI
Ele levanta e vai pro microscópio
Fazer suas “contage”
. . .
Então agita, injeta
Coleta e revela usando DAB
Ele levanta e vai pro equipamento
Fazer suas “dosage”
. . .
E vai em frente, gel correndo, vai ciclando, fazendo amplificação
Vai de noitinha, cultivando na plaquinha até a fixação
. . .
E vai em frente, o protocolo é overnight, vai armando o colchão
Vai nessa linha, usa o anticorpo que nem tinha, se errar foi tua mão
. . .
Lattes debaixo do braço e vai fazer pós-doc fora
Põe o casaco e vai embora, Galeão, vai viajar
É gera-gera, geração de descoberta
É o prazo que aperta e dinheiro que não dá
. . .
Continua na bancada e vai seguindo com o plano
Segue sempre imaginando se alguém vai te empregar
É gera-gera, geração de desespero
Vai arrancando cabelo, vai rindo pra não chorar
. . .
Então revisa, analisa
E avisa se o resultado cabe
Ele levanta e vai pro notebook
Fazer suas “plotage”
. . .
Se não publica, a carreira
Periga ir abaixo pelo vale
Ele levanta e sai revoltado
Ele vai chutar o balde
. . .
E vai em frente se esforçando, se envolvendo, trabalhando por paixão
Vai pouco a pouco, saturando a academia, sem ter muita opção
. . .
E vai em frente investindo, se enganando que vai ter um emprego bom
Tá na Austrália, foi pra lá fazer pós-doc acabou como garçom